– Bom dia.
– Bom dia.
– Queria um bolo, se faz favor.
– Muito bem. Então e qual é o bolinho?
– É um caracol.
– Muito bem. Um caracolzinho. Quer que o corte ao meio?
– Quero que o corte mas não ao meio. Corte-o entre a segunda e a terceira sílaba. Olhe, assim: cara-col.
– Muito bem. Mais alguma coisa?
– Não, é tudo. Quanto é?
– São noventa cêntimos.
– Muito bem, aqui está.
– Muito obrigado.
– Bom dia.
– Bom dia.
[António]
2011/05/19
...a propósito de animais e livros...
(pequenas perolas de Stefano Benni)
Quem dentro do livro uma melga estatela
não faz cultura, mas poupa uma picadela.
O dragão come os livros e faz com eles fogo
e depois queixa-se que os livros acabam logo
O lobo todas as noites uiva ao vizinho
a sua versão do capuchinho
Uma pergunta feia:
cabem mais baleia num livro
ou mais livros numa baleia?
Irmãos de Sangue
De vez em quando encontro uma pequena pérola como esta que me transporta até uns bons anos atrás e me faz sorrir, de saudade. Como se perde ao longo do tempo esta inocência, esta capacidade de nos ligarmos assim aos outros , sem reservas ,sem qualquer medo! Se ao menos as tivermos compensado de algum modo com outras aprendizagens...
(Luisa)
Irmãos de sangue
Os dois rapazes deixaram-se ficar encostados à parede entre o restaurante e a esquina.
Ouvindo-os falar, percebia-se que conversavam em arábico.
Falaram-me quando eu ia a passar. Queriam uma indicação sobre uma carreira de autocarro. Não me aproximei muito e perguntei:
- São de Marrocos?
Disseram-me que um era, o outro era argelino.
- Conheceram-se aqui?
Sim. Somos irmãos de sangue!
- Como irmãos de sangue? Um argelino, o outro marroquino?
Mostraram-me as palmas das suas mãos direitas. Ambas apresentavam um sulco, a sarar, mas uma delas ainda com crosta. Engancharam os polegares e apertaram as mãos uma na outra.
Ri-me. Lembrei-me da minha infância, dos pactos, das irmandades, das juras eternas, dos segredos de Sandokan, o Tigre da Malásia, das vinganças do Conde de Monte-Cristo.
A gente fazia um golpe nas mãos uns dos outros e misturávamos os sangues.
- Então é assim que vocês são irmãos?! - perguntei.
Riram-se como dois putos.
- Sim, de sangue! - disseram com os olhos a brilhar.
E ensinei-lhes o autocarro.
Ainda hoje penso que é muito bom ter irmãos de sangue...
Joaquim Letria in Cais, Maio 2011
2011/05/16
no words...
"I read once that the ancient Egyptians had fifty words for sand & the Eskimos had a hundred words for snow. I wish I had a thousand words for love, but all that comes to mind is the way you move against me while you sleep & there are no words for that." www.storypeople.com
"Li uma vez que os antigos epipcios tinham cinquenta palavras para areia e que os esquimós tinham cem para neve. Quem me dera ter mil palavras para o amor, mas tudo que me ocorre é a forma como o teu corpo se move a dormir contra o meu e para isso não há palavras."
"Li uma vez que os antigos epipcios tinham cinquenta palavras para areia e que os esquimós tinham cem para neve. Quem me dera ter mil palavras para o amor, mas tudo que me ocorre é a forma como o teu corpo se move a dormir contra o meu e para isso não há palavras."
2011/05/12
Página de escrita
Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
Repitam, diz o mestre
dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
Mas eis que o pássaro-lira
passa a voar no céu
o menino vê-o
o menino chama-o
Salva-me, brinca comigo
passarinho!
Então o passarinho desce
e brinca com o menino
Dois e dois quatro
Repitam diz o mestre
e o menino brinca
e o passarinho brinca com ele
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
e dezasseis e dezasseis fazem o quê?
Dezasseis e dezasseis não fazem nada
e muito menos trinta e dois
e de qualquer modo vão-se embora
e o menino escondeu na carteira
o passarinho
e todos os meninos
ouvem a canção
e todos os meninos
ouvem a música
e oito e oito também se vão embora
e quatro e quatro
e dois e dois
e um e um não fazem nem uma nem duas
um e um vão-se embora também
e o pássaro-lira brinca
o menino canta
e o professor grita:
Vamos lá acabar com a brincadeira!
Mas todos os outros meninos ouvem a música
e as paredes da sala
desmoronam-se suavemente
e os vidros das janelas voltam a ser areia
a tinta volta a ser água
as carteiras voltam a ser árvores
o giz volta a ser rochedo
e a caneta volta a ser passarinho
(Jacques Prévert)
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
Repitam, diz o mestre
dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
Mas eis que o pássaro-lira
passa a voar no céu
o menino vê-o
o menino chama-o
Salva-me, brinca comigo
passarinho!
Então o passarinho desce
e brinca com o menino
Dois e dois quatro
Repitam diz o mestre
e o menino brinca
e o passarinho brinca com ele
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
e dezasseis e dezasseis fazem o quê?
Dezasseis e dezasseis não fazem nada
e muito menos trinta e dois
e de qualquer modo vão-se embora
e o menino escondeu na carteira
o passarinho
e todos os meninos
ouvem a canção
e todos os meninos
ouvem a música
e oito e oito também se vão embora
e quatro e quatro
e dois e dois
e um e um não fazem nem uma nem duas
um e um vão-se embora também
e o pássaro-lira brinca
o menino canta
e o professor grita:
Vamos lá acabar com a brincadeira!
Mas todos os outros meninos ouvem a música
e as paredes da sala
desmoronam-se suavemente
e os vidros das janelas voltam a ser areia
a tinta volta a ser água
as carteiras voltam a ser árvores
o giz volta a ser rochedo
e a caneta volta a ser passarinho
(Jacques Prévert)
2011/05/11
Janela sobre as proibições - Eduardo Galeano
Ventana sobre las proihibiciones
En la pared de una fonda de Madrid hay un cartel que dice: prohibido el cante.
En la pared del aeropuerto de Rio de Janeiro hay un cartel que dice: prohibido jugar con los carritos porta-valijas.
O sea: todavía hay gente que canta, todavía hay gente que juega.
É o meu primeiro post, tinha de ser esta janela de Galeano, que gosto tanto de abrir…
Uma das primeiras vezes em que a abri foi em Coimbra, numa quinta com contos da Camaleão. Sala cheia, aquele clima bom e vivo que as noites organizadas pela Helena Faria e o Zé Geraldo têm.
Estava com Patrícia Orr, que era a convidada da noite.
Quando acabei de contar a janela e me sentei, Ana Filipa, uma amiga da Sofia que estava na nossa mesa, disse que eu não ia acreditar, que parecia incrível, mas num ali perto do rio havia um cartaz que dizia: proibido beijar.
Pareceu-me pouco provável uma coisa destas, mas depois eu e Patrícia nos pusemos a discutir se haveria ou não o tal cartaz e, caso houvesse, se seria a sério ou não…
Achamos que o assunto era importante o suficiente para justificar uma investigação e no dia seguinte de manhã fomos à procura do tal bar, que acabou por se revelar mais uma espécie de samba do crioulo doido, uma construção retangular à beira do rio, atafulhada de coisas para turistas, três ou quatro mesinhas num canto, quase perdidas no meio de tanta tralha, um balcão e, nas paredes, literalmente, milhões de tarecos pendurados.
Estávamos decididas a encontrar o tal cartaz e, mais, a fotografá-lo, porque uma coisa destas pede sempre provas materiais para que nos acreditem. Mas por mais que procurássemos no meio daquela profusão de coisas… nada. Nem sinal do dito cujo.
A dona do bar, vendo nós as duas ali plantadas no meio do seu nicho ecológico, olhando as paredes como perdidas e aparentemente sem a menor intenção de consumo, acabou por nos perguntar, meio mal-humorada, o que é que nós procurávamos.
Dissemos que procurávamos o cartaz de proibido beijar.
- Ah, isso? Está ali no canto! - e apontou para um espaço por cima da omnipresente televisão.
Era uma placa como as de trânsito, redonda, onde se via, a preto sobre um fundo branco, o perfil de um casal se beijando, com uma linha vermelha cruzada no meio, tal como nos cartazes de proibido estacionar, ou coisa que o valha.
- Já é um cartaz muito antigo, está aí há muito tempo - informou.
Perguntamos se aquilo do proibido beijar era a sério ou uma brincadeira, cheias de esperança de que brincadeira fosse.
- Olhem minhas senhoras, nós aqui não temos nada contra os beijos, achamos normal, são coisas da juventude. Mas teve de ser, porque há gente que exagera… e isso não se admite.
E assim ficamos devidamente esclarecidas.
Não tomamos nem um café, numa espécie de vingança inútil.
Saí de lá pensando na vida amorosa daquela mulher e daquele homem que proibiam beijos. Retiro o amorosa. Saí, sei lá, meio desconsolada. Mesmo com o Mondego a faiscar ao sol, mesmo com o céu de um azul alucinado, e a cidade linda por trás.
Então Patrícia, com aquele sorriso matreiro dela, disse:
- No estejas así, Chica. Se hay cartel… es que todavía hay gente que besa!
Não conseguimos tirar a tal fotografia, a máquina da Patrícia ficou sem bateria. Não há provas.
Mas juro que o cartaz existe, e a dona do bar também.
A Patrícia também existe.
E viva os que cantam, os que contam, os que brincam, os que dançam…
E viva os que beijam!
Cláudia Fonseca
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