2011/05/25

Noites quentes

A chegada das noites quentes faz-me lembrar as minhas noites de menino que vivi em África.

Aquelas noites em que a minha avó me punha no seu colo e eu sentia o seu corpo magro na magreza do meu.

Mesmo sem colo macio, eu ali ficava a escutá-la quando ela me contava as suas histórias, histórias antigas que a avó dela lhe contava, ao colo, em noites quentes...

Sempre que estavamos perto do fim de alguma história, surgia o meu avô (parece que tinha pontaria, aparecer assim, sempre nesses momentos, mesmo antes do desfecho do mistério), com a sua longa cana de pesca na mão e um peixe a debater-se na ponta da linha.

Nessa altura, a minha avó levantava-se para ir amanhar o peixe e fazer o jantar e o meu avô ficava no lugar dela.

Perguntava-me o que é que ela me tinha dito e à medida que eu ia dizendo o que me ia lembrando, ele abanava a cabeça em desaprovação. "Não foi nada assim" costumava dizer.

Depois começava a contar-me como é que a coisa se tinha passado e eu ouvia as mesmas histórias, às vezes iguaizinhas às que a minha avó tinha contado, outras vezes com nomes, lugares e tempos todos trocados.

Quando o peixe estava pronto, naquela casa de pescadores, a minha avó começava a cantar e pouco depois, aparecia à porta de casa, feita com fitas de plástico coloridas para não deixar entrar moscas, o homem da perna de pau, um velho amigo da família que lembrava, remotamente, um pirata de alto mar.

Enquanto jantávamos, os três velhos não se fartavam de falar e, às vezes, muitas vezes, todos ao mesmo tempo, e quando contavam alguma coisa divertida riam estrondosamente, em sintonia, com as suas bocas abertas exibindo o peixe mastigado pelos poucos dentes que restavam...

E quando riam alto, a nossa vizinha de cima, a senhora Bela, descia as escadas de madeira com a mesma suavidade com que uma folha cai da sua árvore e sentava-se à volta da mesa, na qual poisava uma garrafa de pinga, que era o seu combustível para a conversa.

E nisto ficavam, à luz do fogareiro, das velas, do candeeiro e do mais que, em alternativa, houvesse para iluminar, até se apagar a última centelha de conversa.

Antes disso já eu tinha adormecido no colo da minha avó ou da senhora Bela, e quando o sono deles chegava, os quatro agarravam em mim, unindo as suas forças de velho, e depositavam o meu corpo mole na minha cama.

Um a um, despediam-se de mim de um jeito diferente e embalavam-me para a noite escura e quente.

Anos mais tarde, os adultos da minha família, diziam-me que aquelas histórias que eu recontava e que tinha ouvido deles eram invenção minha e também diziam que aquelas pessoas não existiam.

Sabem que mais?

Eram mesmo invenção minha, porque às vezes, onde não há nada, temos mesmo de inventar.




António, in "Memórias inventadas"

4 comments:

Patricia A. Orr said...

Buenísima la memoria inventada!! Gosté muito!!
Beijinho é saudades alende as mares!Patricia O

António Gouveia said...

Obrigado pelo teu comentário :)

Beijos e abraços (saudosos)

sfaia said...

maravilha António! também gostei muito muito! bjñs

contabandistas de estórias said...

Nossa, António, que coisa mais comovente, agora fiquei meio sem fôlego, até! Tens mesmo de contar isto, meu.
Beijos
Cai