2011/12/07


Vocês digam o que quiserem, mas eu gostava ser bruxa, pelo menos de vez em quando....

anto

2011/11/09


Quando as palavras não chegam......

:) anto

2011/11/07

sonhando uma "Terra Incógnita"


Já tive um país pequeno,
tão pequeno
que andava descalço dentro de mim.
Um país tão magro
que no seu firmamento
não cabia senão uma estrela menina,
tão tímida e delicada
que só por dentro brilhava.

Eu tive um país
escrito sem maiúscola.
Não tinha fundos
para pagar a um herói.
Não tinha panos
para costurar bandeira,
nem solenidade
para entoar um hino.

Mas tinha pão e esperança
para os viventes
e sonhos para os nascentes.

Eu tive um país pequeno,
tão pequeno
que não cabia no mundo.

("Poema didáctico" - Mia Couto
em "Tradutor de chuva", 2011)

anto

2011/11/03

Eu herdei uma floresta sombria

Eu sei que estamos quase no inverno mas, se hoje me apetecer que seja primavera, porque não?
 Gostei muito destes versos de Tomas Transtromer, o poeta sueco que ganhou o Nobel de literatura, traduzidos por Alexandre Pastor:


Eu herdei uma floresta sombria

...há sempre nas nossas vidas
um grande amor por revelar.
Eu herdei uma floresta sombria
mas hoje passeio numa outra,
plena de claridade. Tudo o que está vivo
e canta, serpenteia, acena, rasteja!
É primavera e o ar que se respira é fortíssimo.
Tenho um diploma da universidade do olvido
e as mãos tão vazias como a camisa
pendurada na corda de secar roupa.



lu

2011/10/26

Em tudo há uma história

Como Richard Branson começou a Virgin Airways:


In '79, when Joan, my fiancee and I were on a holiday in the British Virgin Islands, we were trying to catch a flight to Puerto Rico; but the local Puerto Rican scheduled flight was cancelled. The airport terminal was full of stranded passengers. I made a few calls to charter companies and agreed to charter a plane for $2000 to Puerto Rico. Cheekily leaving out Joan's and my name, I divided the price by the remaining number of passengers, borrowed a blackboard and wrote: VIRGIN AIRWAYS: $39 for a single flight to Puerto Rico.
"Em 1979, quando a minha noiva Joan e eu estávamos de férias nas Ilhas Virgens Britânicas, estávamos a tentar apanhar um voo para Puerto Rico, mas o voo local agendado para Puerto Rico tinha sido cancelado. O terminal do aeroporto estava cheio de passageiros encalhados. Fiz uns telefonemas para umas empresas de charters e concordei alugar um avião por 2000 dólares para Puerto Rico. Deixei sub-repticiamente de fora o nome da Joan e o meu e dividi o preço pelos restantes passageiros. Pedi emprestado um quadro preto e escrevi: Virgin Airways: 39 dólares uma ida para Puerto Rico."


falando de unicórnios:


bjñs
Sfaia

2011/10/25

o unicórnio de porcelana

Apesar de todas as misérias, infelicidades, ofensas, sofrimentos e maldade, é extraordinário como as pessoas têem capacidades insuspeitas para ultrapassar tanta coisa e recuperar a inocência, a ternura, a capacidade de se comoverem e consigam encarar a vida com naturalidade e alegria.
Este pequeno filme do youtube é mesmo precioso. Um amigo enviou-mo e não resisto a partilhá-lo.
É mesmo  precioso.

luisa



 http://www.porcelainunicorn.com//




2011/10/14

elefantes

Eu, que gosto tanto de elefantes, que conto histórias de elefantes, gostava de ter uma bela fotografia de elefantes para pôr aqui... mas como não tenho, paciência. Transcrevo apenas este poema do Mário Cesariny:


elefantes
Elefantes na água optimistas à solta
optimistas à solta elefantes na árvore
elefantes na árvore optimistas na esquadra
optimistas na esquadra elefantes no ar
elefantes no ar optimistas em casa
optimistas em casa elefantes na esposa
elefantes na esposa optimistas no fumo
optimistas no fumo elefantes na ode
elefantes na ode optimistas na raiva
optimistas na raiva elefantes no parque
elefantes no parque optimistas na filha
optimistas na filha elefantes zangados
elefantes zangados optimistas na água
optimistas na água elefantes na árvore

saudações elefânticas
lu

2011/10/10

Outras avós

E há outras avós que não contam histórias da forma mais doce:

2011/09/30

eu também tive avó!

 Gostei muito do avô do António, do avô da Antonella... e então eu, não tive avós?
Claro que tive, lembro-me bem da minha avó Luísa, de quem herdei o nome, e da história do divã. Aqui está ela: 



O divã da minha avó

Quando eu era criança a nossa família vivia numa casa grande, em Lisboa que, apesar de ter muitas divisões, não tinha propriamente uma sala de estar. Por isso a nossa sala de estar era a sala de jantar, que era enorme e onde havia, não um sofá, mas um magnífico divã cheio de almofadas de várias cores. Era o sítio onde eu mais gostava de me sentar, ou acocorar, ou ajoelhar, ou reclinar,ou deitar conforme as circunstâncias. Porque havia o cadeirão da minha avó Luísa onde mais ninguém se podia sentar, o cadeirão do meu pai, idem, a cadeira de descanso da minha mãe, idem, idem e as cadeiras vulgares de sentar à mesa que eram de costas direitas e não estofadas e não davam jeito nenhum para descontrair. Ali no divã grande sim, toda a gente se podia sentar, normalmente com um certo aprumo, mas às vezes também sem aprumo nenhum e até se podia cabriolar se o meu pai não estivesse presente. Até o gato podia ir para o divã! Ah, aquele divã! Com uma coberta de seda amarela escura, côr de ouro velho e cheiinho de almofadas! A minha avó também se sentava lá muitas vezes para que nós as crianças pudéssemos ir-lhe para o colo e conversava connosco, conversava. Contava coisas da vida dela, de quando era nova ou mesmo de quando era pequenina e eu ficava sempre pasmada a ouvir porque era tão incrível, tão completamente impossível que ela tivesse sido do meu tamanho alguma vez, ou que tivesse sido rapariga nova como as minhas irmãs mais velhas, que tudo o que ela dizia tinha um sabor a conto de fadas, como se fosse de um outro mundo. E a história do divã! Era mesmo um divã precioso. Ela de vez em quando contava a história do divã:
“Este divã, minha filha, embora esteja em casa do teu pai, era meu. Fui eu que lho dei. Deu-mo a minha avó Roberta, antes de morrer, que por sua vez o recebeu como herança de uma grande amiga que ela tinha. Chamava-se Zaida e era turca. Tinha vindo com os pais para Portugal quando era pequena; Vieram fugidos da Turquia porque eram cristãos e naquela época tinha havido lá uns problemas entre os muçulmanos e os cristãos. Embarcaram com tudo o que puderam reunir, mas o navio naufragou e a única coisa que se salvou, para além das pessoas, foi este divã! Vê tu, minha filha, estás sentada num divã que já viveu na Turquia, muito loooonge, onde se sentavam de pernas cruzadas pessoas turcas a falar uma língua estranhíssima, mulheres tapadas com véus, homens de grandes bigodes retorcidos a fumar cachimbos de água e a comer pistachios. Atravessou o mar, sofreu uma tempestade terrível e quase foi ao fundo, mas escapou. Veio ter a uma praia do Algarve juntamente com as pessoas que se conseguiram salvar e por fim foi levado para a casa onde foram viver os pais da pequena Zaida que o lavaram, secaram, poliram, enceraram e trataram com todo o carinho, pois era a única peça de mobília que tinham da sua vida passada. E quando os pais morreram ficou para a Zaida e quando a Zaida morreu ficou para a minha avó e quando a minha avó morreu ficou para mim e eu dei ao teu pai e, quem sabe, quando o teu pai morrer um dia talvez possa ficar para ti?”
Para mim a história do divã era toda ela tão longínqua e estranha como a impossível ideia de que o meu pai morresse algum dia. Era um conto de fadas. Não que eu não acreditasse, mas acreditava como acreditava nos contos de fadas, uma espécie de realidade paralela, a um outro nível, que não tinha nada que ver com o facto simples e evidente de eu estar ali aos pulos do divã para o chão e do chão para o divã e a atirar almofadas ao gato. Mas só as almofadas mais pequenas.
Luísa

2011/09/26

Também tenho lembranças do meu avô Telemaco, pai do meu pai, que nunca cheguei a conhecer; tanto que esta lembrança está meia inventada e meia roubada, chegando a ser mais viva do que a verdadeira.
Quando era pequena, o mundo também era mais pequeno. A televisão ainda não tinha chegado à nossa aldeia.Não tínhamos televisão mas tínhamos lareira. E à frente da lareira havia sempre um avô ligado que contava.
Nós tínhamos sorte, porque tínhamos com certeza o melhor avô das redondezas. Alguns tinham avôs que adormeciam e desligavam logo, outros tinham avôs xexés que não sabiam contar nada, outros nem tinham avô, e passavam tristemente o serão olhando para as cinzas e ouvindo os estalidos da fogueira. Mas o nosso avô Telemaco, um exemplar robusto de 87 anos, era um extraordinário contador de lareira, e vinham de todo o lado para ouvi-lo. Diziam: “à noite vamos para a casa dos Melros, lá têm um Telemaco 87, dois polegares, que conta a história da Grande Seca de 1748…”. Ou também:”Mãe, hoje à noite o Telemaco tem o programa de contos e lengalengas para crianças, podemos ir?”. Na sexta-feira havia o serão a luz vermelha: contos porcos e picantes do local, no sábado eram os contos de guerra. Mas eu gostava era do Domingo, porque o avô Telemaco bebia a dobrar e desatava a contar sem parar, e tudo acabava só lá para as três da manhã.
Lembro-me que sentávamos todos à volta da lareira, onde ardia uma linda fogueira, e o avô Telemaco voltava da eira, onde tinha ido dar de comer aos animais, tirava as botas e, para começar, dava as previsões do tempo mexendo nos calos.
Seguiam as notícias do dia: vinhais, vacas, pegas na aldeia, estragos de maquinarias. A seguir, depois de um grande bocejo, que era o genérico para 0 fim das notícias, o avô Telemaco fazia a pontuação do conto disparando grandes arrotos, e este era o sinal que tinha comido bem, que podia ser considerado o spot publicitário da cozinha da avó.
(Outro spot era quando a cabeça caia de lado, o avô parava e quase adormecia. Mais do que um spot era como quando aparece a escrita “pedimos desculpa para a interrupção momentânea dos programas”, mas bastava atirar uma castanha inteira ao fogo, e com o barulho do estrondo o avô Telemaco recomeçava.)
Havia fábulas, contos de pescas milagrosas, aulas de agricultura, lendas do vale e contos épicos como o grande duelo das escavadoras, ou a captura do touro apaixonado, ou a construção do campo de futebol. Mas a minha preferida era a praga dos Sapos Gigantes. Um colossal de fanta-horror inspirado em factos verídicos acontecidos à 50 anos atrás. Os serões mais aborrecidos, pelo contrário, eram os cor-de-rosa, quando vinham as senhoras e queriam saber Como o Avô Tinha Encontrado a Avó, e Como Acabou o Casamento do Factor, e depois havia um pouco de fofoquices e o debate.
O avô até teria preferido contar outra coisa, mas o seu era um serviço público e por isso tinha que contentar toda a gente. Por volta da meia-noite havia o genérico final, um bocejo que mais parecia o som de uma sineta, e depois todos para a cama.
(O conserto do avô – Bar sport duemila – S. Benni)
Descansa avô... e obrigada pelos contos incríveis.
Anto

2011/09/23

de elefante...

Falando de memória, lembrei-me deste conto do magnífico Campanari:


bom fim-de-semana!
sfaia

2011/09/20

Retrato incompleto do meu avô, a partir de testemunhos dispersos

(Nota introdutória: antes de prosseguir leia "Pequena história sobre como os meu avós se conheceram", um post anterior, deste blog.)

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Sempre que vejo uma borboleta lembro-me do meu avô.

Tal como as borboletas, ele andava de um lado para o outro com ligeireza, com leveza, um pouco aleatoriamente, nunca ia em linha recta desde o local onde estava e o seu destino, qualquer que este fosse.

Esbracejava quando andava, falava sozinho, cantava e às vezes até dançava.

Parecia que os anos não lhe pesavam, continuava saudável e estava cada vez mais bonito.

Os seus olhos brilhavam intensamente desde há muito tempo, desde o momento em que tomou consciência de que estava vivo, e que estando vivo, um dia iria morrer.

Levava alegria contagiante, levava respeito pelos outros e pela vida. Por mais insignificante que fosse qualquer forma de vida, ele a respeitava com veneração.

Levava o peito aberto e um abraço forte nos seus braços, sempre disponível.

Levava uma piada de algibeira, um verso nos lábios, uma resposta pronta debaixo da língua, uma pergunta inquietante mas também a vontade de aplicar um murro justo se fosse necessário, apesar de nunca o ter feito.

Tratava cada pessoa como se fosse única, especial e última.

Queria sempre experimentar tudo, mesmo que tivesse de voltar atrás, para o fazer.

Um dia, já com os seus 74 anos, foi colocar um piercing, sem os meus pais saberem.

Mostrava-o só aos miúdos lá da rua, seus compinchas nos segredos que se sussurram ao ouvido, protegidos pelas mãos em concha, para não se escaparem e serem levados pelo vento.

Ensinava os miúdos da rua a andar de bicicleta, de carrinhos de rolamentos e até de skate.

Segurava-os para não caírem nas primeiras tentativas e quando já se aguentavam até os empurrava para os pôr à prova – era danado!

Quando se sentava para descansar e olhava para a minha avó, olhava-a do mesmo jeito com que contemplava, nas noites de Verão, a Via Láctea: deslumbrado e grato.

Estavam sempre juntos e até o corredor da luz, o percorreram juntos e de mãos dadas.

Morreram os dois abraçados durante um sono profundo, numa noite fria, de Inverno, depois de se terem amado, não uma última vez mas sim uma vida inteira.



António, in "Memórias Inventadas"

2011/09/17

Ele há imagens...



...que pela sua simplicidade suscitam histórias que até podem ser complicadas.

(by http://www.flickr.com/photos/coquinete)

2011/09/16

O nome da galinha


O nome da galinha


Era uma vez uma galinha que tinha uma curiosidade insaciável. Há animais assim.
Vivia no quintal e, embora não conseguisse sair para fora porque o muro era muito alto, conseguia sair para dentro... de casa. Portanto, assim que podia, entrava em casa da dona para ver tudo o que houvesse para ver. Metia o nariz em todo o lado, aliás o bico. Entrava pela cozinha, da cozinha passava para a sala, da sala para os quartos, nada lhe escapava. Ai, aquela galinha! Era um castigo aquela galinha! A dona estava sempre a enxotá-la mas ela era tão esperta e passava tão discretamente que acabava sermpre por ir para onde queria.
De tanto ver a filha da dona a estudar as lições, aprendeu a ler e como achava absolutamente injusto que ninguém lhe tivesse posto um nome, meteu-se-lhe na cabeça escolher um a seu gosto. Sim, porque o gato tinha nome, chamava-se Tição; o passarinho tinha nome, chamava-se Pinóquio; a menina tinha nome, chamava-se Joaninha, a mãe e o pai também tinham nome, chamavam-se respectivamente Amélia e António. E então ela, a galinha de estimação, tão mimosa e prendada que punha o seu ovo todos os dias e tudo, não merecia nome? Era o que faltava!
Foi para o quarto da Joaninha e começou a procurar no dicionário: galinha, subst. fem. etc.etc. O que era uma galinha já ela sabia, adiante, blábláblá, galinhola... galo... galocha … galope...galopim... nada que interessasse. Vamos ver mais para trás: gala.... galã ...também não. Se bem que gala - festa, solenidade, não estava mal, mas não soava lá muito bem... soava a uma galinha grande ou coisa assim. Adiante, blábláblá.. galardão.... galáxia ...
Galáxia! Boa! Conjunto de estrelas e outros astros, poeira cósmica, etc., animado de movimento, etc.,etc. ..... Era ela por uma pena! Os seus olhos eram verdadeiras estrelas, o corpo redondo e belo como os astros, o bico, as asas, as patas, as penas coloridas, era tudo bem melhor que poeira, fosse ela cósmica ou não, e movimento tinha ela em abundância. E era muito animada. Está feito! Cacarejou ela muito satisfeita. A partir deste momento vou me chamar Galáxia. E cuidado comigo, que este é um nome importante, grandioso, nobre e extremamente animado!


que tal esta galinha?
lu

2011/09/13

Pequena história sobre como os meus avós se conheceram

(Nota introdutória: antes de prosseguir leia "O homem da perna de pau", um post anterior, deste blog.)

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O meu avô e a minha avó nasceram no mesmo dia, no mesmo mês e no mesmo ano.

A minha avó nasceu à beira-mar, numa pequena aldeia, no seio de uma família de pescadores.

Quando ela era criança, costumava dizer que ainda antes de ter nascido já via o mar através dos olhos da sua mãe e já ouvia também as suas ondas.

Cedo aprendeu que a água e a espuma de cada onda limpam tudo o que está escrito na areia, e que cada onda traz um nova oportunidade de recomeçar e que só depende de quem está na praia a vontade de escrever algo diferente na areia, a cada dia, a cada onda, de cada vez que a areia é limpa.

Cedo aprendeu que era preciso ir ao mar para sobreviver e que o mar, às vezes, quando menos se espera, cobra o seu preço.

O meu avô nasceu na montanha, numa comunidade de camponeses.

O cheiro húmido da terra, o vento a passar pelas folhas das árvores, os sons dos nascimentos dos animais do campo são das suas primeiras memórias.

Cedo aprendeu os ciclos da terra, da sementeira e da colheita, da escassez e da abundância, da seca e da cheia.

Aprendeu que a terra dá sustento mas que exige trabalho; aprendeu que, com o passar do tempo, os vincos que se fazem na terra com o arado, o tempo os devolve no corpo do camponês.

Os meus avós cresceram, cada um do seu jeito, cada um no seu meio, à semelhança dos outros.

E crescendo, viam-se a si próprios como frutos da terra que iam amadurecendo.

Viam a natureza em seu redor que se multiplicava e se renovava, viam os bichos e os homens e as suas famílias, e em todos eles viam as as suas cumplicidades e os seus afectos...

Quando estavam prestes a florir para o amor, quiseram pela primeira vez, ir a uma festa popular, lá numa outra aldeia, longe, uma festa com baile a valer, uma festa onde iam muitas pessoas de outras aldeias.

O meu avô desceu a montanha, como a desce um rio.

A minha avó despediu-se do mar, levando areia nos bolsos da sua saia.

O meu avô procurava uma partida, a minha avó um porto de chegada.

E foi nessa festa, nesse baile, que se conheceram.

A minha avó olhou para o meu avô e o meu avô olhou para a minha avó e pensamentos novos ocorreram-lhes.

Entre eles estava muita gente, na realidade, pela sua timidez, entre eles, procuravam que estivesse toda a gente da festa.

Aos poucos, lá se foram aproximando, avançando uns quantos passos, poucos, em cada pausa de cada música, enquanto os músicos tragavam um copo de vinho e comiam um pedaço de pão, até que, alarmados pelo anúncio da última música, os dois se lançaram.

Lançaram-se um ao outro como se lançam os pequenos pássaros no seu primeiro voo.

Avançaram com o coração a explodir, o corpo descontrolado, aproximaram-se mais e viram-se, pela primeira vez, frente a frente.

E neste estado, com as faces próximas, as mãos a tremer, os olhos a transbordar de uma felicidade líquida, sussurraram, ao mesmo tempo, no ouvido um do outro:

– Encontrei-te!




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Nota: sabem uma coisa? Afinal, aquela não foi a última música. Os músicos, e quase todas as pessoas que estavam na festa, tinham percebido que aqueles dois precisavam de uma pequena ajuda...

Ainda bem que assim foi porque, caso contrário, sendo os meus avós tão tímidos, eu ainda corria o risco de não estar aqui para me recordar desta memória inventada.




António, in "Memórias Inventadas"

2011/09/07

Isto me lembra...

Mambembe - Chico Buarque
Quando o Carnaval Chegar, filme de Cacá Diegues



Vi este filme quando era menina. Foi um filme que me marcou muito e de que me lembro sempre, de que me lembro aqui e ali. Uma banda sonora que tenho ouvido e cantado ao longo da vida. Um filme que quero que a minha filha veja. Uma referência, enfim.

Hoje, eu me vejo e revejo neste bando, e nos imagino assim, mambembes, contando por aí feito loucos num autocarro com uma grande boca por onde saem muitas, muitas histórias e canções.

2011/09/03

receita de verão


Já que a Cristina Paiva nos põe a adivinhar poetas, também eu posso pôr as pessoas a adivinhar isto.
Quem sabe o que é esta receita de verão?

Misturar numa tigela grande:
Mar absolutamente transparente em grande quantidade; sol idem; um pouco de areia; 2 chávenas de peixes pequenos; algas q.b. ; relaxamento abundante; inspiração a gosto; 3 montanhas fortemente arborizadas ao longe; 2 ou 3 barcos à vela no horizonte; ruído de fundo à distância de vozes infantis; sombra q.b. ; algumas rochas arredondadas; 1 colher de sopa de conchas pequenas; a mesma quantidade de pedrinhas de várias cores.
Misturar moderadamente e tomar regularmente no decorrer de vários dias. Terminar com sardinhas assadas no 13. 

Boa sorte!
lu

2011/09/02

a forma das histórias



2011/08/30

Jeremias #2

(Nota introdutória: antes de prosseguir leia "Jeremias #1", um post anterior, deste blog.)

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Sempre que passo por ali vejo a mesma mulher e a sua pequena cadela castanha de longas orelhas, ambas sentadas no banco de pedra, ao lado da igreja amarela, com sacos de compras aos seus pés.

A sua presença diária e permanente, sempre que por lá passo, faz-me pensar que sempre que passo por lá, é como se passasse ali pela primeira vez, uma mesma vez, uma vez intemporal, porque ali nada muda e isso faz-me pensar que o tempo não passa, que vivo todos os dias o mesmo dia, pela primeira vez.

Na realidade, quer a mulher quer a sua cadela – que eu vi pela primeira e única vez há já muito anos –, já terão morrido, porque quando as vi já eram ambas velhinhas, mas eu criei uma escultura com estas duas figuras e ainda que seja uma escultura um pouco tosca faz-me recordá-las e com isso fixar o tempo e continuar a viver aquele dia, daquela mesma forma.

Na realidade, eu não criei uma escultura que todos possam ver mas sim uma espécie de representação imaginária permanente, virtual, apenas para mim, de modo que sempre que eu passo por ali, vejo a mesma mulher, com a sua cadela castanha de longas orelhas, ambas sentadas no banco de pedra, ao lado da igreja amarela, com sacos de compras aos seus pés.

Na realidade, o banco de pedra também já não existe, pois agora está instalado nesse lugar um pequeno estaleiro de obras que ali fará nascer um parque de estacionamento subterrâneo; porém, no lugar desse estaleiro de obras, eu vejo a mulher, com a sua cadela castanha de longas orelhas, ambas sentadas no banco de pedra.

Na realidade, não é só da mulher, com a sua cadela castanha de longas orelhas, com sacos de compras aos seus pés, que eu criei uma “escultura”.

Criei muitas mais esculturas por aí; comecei a criá-las logo a partir das primeiras imagens que vi no primeiro dia em que passeei pela baixa de Lisboa, logo desde o momento em que dei início à minha deriva e por aí fui passeando.

E de todas as imagens que eu vi – todas as situações, circunstâncias, episódios que quis guardar para recordar mais tarde – eu criei essa espécie de imagem virtual e assim, povoei a baixa da cidade com imagens que mais ninguém vê.

Muitas dessas imagens sobrepõem-se no mesmo espaço, tendo ocorrido em tempos diferentes mas eu acumulo-as no local onde decorreram.

Às vezes, também me ocorre, deslocar algumas dessas imagens para outros lugares que tenham menos gente, isto é, com menos destas representações virtuais, para não sobrepor muitas imagens que tornaria esse local mais confuso.

Às vezes agrupo estas imagens por algum tipo de classificação e distribuo-as por várias ruas e largos, para não me confundir.

Às vezes, todavia, esqueço-me dos critérios utilizados nessa distribuição e pergunto-me porque razão coloquei num determinado local uma determinada imagem.

Outras vezes, como algumas dessas imagens são tão reais, baralho-me: são mesmo pessoas e seres ainda vivos que ali estão ou são “as minhas imagens”?

Acontece também que, por vezes, tenho dificuldade em encontrar o melhor local para uma destas minhas imagens.

E é disso que eu, hoje, queria falar consigo.

Estou com um problema, é que no estaleiro das obras do parque de estacionamento subterrâneo, ao lado da igreja, passou-se um novo episódio, e gostava que aquele espaço ficasse, pelo menos para já, só com a imagem das pessoas envolvidas nessa nova situação.

Então a pergunta é: onde é que acha que eu poderei colocar aquela mulher, com a sua cadela castanha de longas orelhas, ambas sentadas no banco de pedra, ao lado da igreja amarela, com sacos de compras aos seus pés?


Jeremias,





António, in "Memórias Inventadas"

2011/08/12

urbanidades


As cidades também são locais de comunidade, arte, movimento, beleza, ritmo, música, cor,...


vídeo MÖBIUS

Möbius - Melbourne


bjñs
sfaia

2011/08/05

Danças

Com a Anto em Itália a dançar a tarantela e os restantes membros do bando no Andanças, em São Pedro do Sul, a dançar tudo o que puderem, resta-me partilhar convosco uma dança que tem engenho, graça e história.

bjñs
sfaia

2011/07/31

The Fantastic Flying Books
of Mr Morris Lessmore Trailer

http://vimeo.com/17164728

A Paula Cusati de Santiago do Cacém
fez-me descobrir esta maravilha.
Carreguem no link e sonhem.

Só para quem gosta vive de livros

anto

2011/07/28

A taínha e a sardinha


Era uma vez uma taínha que tinha uma petulância extraordinária. Considerava-se muito superior aos outros peixes por ter um nome delicado, fino, um nome que era ele próprio como um diminuitivo, sem o ser. Foi procurar a sardinha, que estava na mesma situação, e convenceu-a a formarem um clube: O Clube dos Peixes Finos e Delicados. 
A sardinha concordou e achou bem que fosse um clube bastante exclusivo. No entanto  sugeriu que aceitassem também o salmonete e o lagostim que afinal estavam também numa situação semelhante. A taínha a princípio não quis aceitar. Então o salmonete não era diminuitivo de salmão? E o lagostim diminuitivo de lagosta? Mas teve de se render à evidência pois a sardinha demonstrou-lhe que o salmonete não era um salmão pequeno nem o lagostim era uma pequena lagosta. Aliás, ela própria, a sardinha, também não era simplesmente uma pequena sarda, mas sim um peixe diferente! 
Lá no fundo, a taínha não ficou muito convencida. Lá no fundo achava que só ela própria , taínha, deveria  ter o privilégio de ser membro do exclusivo Clube dos Peixes Finos e Delicados , mas lá no fundo - isto é no fundo do mar - também era chato ficar sozinha e portanto não disse nada e aceitou.
E passaram a reunir-se os quatro no seu clube em noites de lua cheia para partilharem piadas e maledicências sobre aqueles horrorosos peixes e animais marinhos que são uns brutamontes, sem qualquer finesse e têm nomes que são como aumentativos sem o serem, como o tubarão, o mexilhão, o biqueirão ou o lingueirão, que toscos!




luísa

2011/07/23

pequenos páraquedas ou almofadas...



Uma mãe cujo filho tinha medo de adormecer criou este site onde os livros estão organizados segundo diferentes necessidades e desafios do crescimento. Uma ideia excelente! (via madebyjoel)

www.littleparachutes.com

bjñs
sfaia

Dias ventosos

Anda tudo desarrumado... as pessoas andam de casaco em vez de sandálias e voa areia em vez de borboletas e dentes de leão.

Será que o sol está com uma crise de auto-estima?

Lembrei-me desta pequena fábula de Esopo para afagar o ego do astro-rei:

Um dia o sol e o vento discutiam qual deles seria o mais forte. De repente viram um viajante a descer a rua e o sol disse: "Estou a ver uma forma de resolvermos esta discussão. Aquele que conseguir fazer com que o viajante tire o manto será considerado o mais forte. Começa tu." E o sol escondeu-se atrás de uma nuvem enquanto o vento começou a soprar com toda a sua força para cima do viajante. Mas quanto mais forte soprava mais o viajante aconchegava à sua volta o seu manto, até que por fim o vento teve de desistir. Logo o sol saiu de trás da nuvem e começou suavemente a aquecer o homem que desabotoou o manto. Gradualmente o sol foi aumentando o calor que raiava sobre o viajante e este finalmente tirou o manto pois estava demasiado calor para continuar a andar com ele vestido.




bjñs fortemente suaves
sfaia

2011/07/21

mar com carneirinhos

Também o mar tem carneiros
tem carneirinhos o mar
quem me dera ser pastora
e o rebanho apascentar

E o que pastam os carneiros
que nem se ouvem balir?
Só se fôr as algas verdes
de entre as águas a surgir


Se eu pudesse andar com eles
era tudo o que eu queria
a frescura dessas águas
é que me dava alegria

De manhã até à noite
por entre as ondas nadar
quem me dera ser pastora
dos carneirinhos do mar!

luisa

2011/07/17


Para quem ainda não viu, este belíssimo vídeo sobre o poder das palavras...
Enjoy your beautiful day.

antonella

2011/07/15

Um só dia

Quantas histórias cabem num só dia da história deste pontinho dentro dum pontinho dentro dum pontinho do Universo ao qual damos o nome de Terra?
Este é um aperitivo duma longa metragem filmada por milhares de cineastas em todo o mundo durante um único dia... a amostra promete!

One Day On Earth

bjñs arrepiados (dum mergulho ao luão)
Sfaia

2011/07/14

leituras

hoje gostaria de compartilhar convosco um bocadinho do livro que ando a ler. é do Antonio Muñoz Molina, chama-se Sefarad. é só para vos abrir o apetite.

"Às vezes, no decurso de uma viagem,  ouvem-se e contam-se histórias de viagens. Parece que na partida a recordação de viagens anteriores se torna mis nítida e que ouvimos e agradecemos mais as histórias que nos contam, parêntesis de valiosas palavras no interior do outro parêntesis temporal da viagem. Quem viaja pode permanecer num silêncio que será misterioso para os desconhecidos que se fixem nele, ou cede sem perigo à tentação de melhorar um episódio de vida ao contá-lo a alguém que nunca mais verá......
......
Nas viagens contam-se e escutam-se histórias de viagens. 'para onde quer que um homem vá, leva consigo a sua história', diz Galdós en 'Fortunata e Jacinta' . Mas eu, certas vezes observanddo  alguns viajantes que não falam com ningém, que ficam calados  e herméticos junto de mim no lugar do avião, pergunto-me que histórias saberão e não contam, que novelas cada um leva consigo, de que viagens vividas ou ouvidas ou imaginárias se estarão a lembrar enquanto viajam em silêncio a meu lado pouco antes de desaparecerem da minha vista, rostos que não serão recordados, bem como para eles, o meu.."  

luisa

2011/07/12


Bem pode acabar, hoje não quero saber, só queria uma história para adormecer.


anto

2011/07/08

Friday I'm in Love

O amor é isto... é perder a cabeça... várias vezes...

Blik

bjñs apaixamorados
sfaia

2011/07/07

Música no Verão

 Agora em pleno verão com as noites tão convidativas estamos mesmo a precisar de bons concertos, de boas músicas.
 Ora vejam e ouçam lá estes dois. E que dois, hem?
Bobby McFerrin and Esperanza Spalding


  Luisa

2011/07/06

giganta

2011/06/30

historias de ida e volta

Fábrica da Pólvora de Barcarena, 25 e 26 Junho 2011

Foi um festival lindo. Foi uma explosão de alegria, de festa, de natureza e de sol. Houve histórias, brincadeiras, árvores, rio, aprendizagens, histórias, livros, artesãos e objectos encantatórios, tecidos, animais fantásticos,  histórias, pregões, cantos, danças, filme,  histórias, pinturas, sopa, adivinhas, sombras,  grandes contadores, entusiasmo, histórias, bébés, crianças, gente crescida, gente crescida que também é criança, histórias ... e a olhar-nos, a olhar-nos de cima, enorme, serena, de forma benévola e sábia, linda de morrer, a nossa guardiã colorida de todas as cores, como se fosse a mãe de todas as histórias, aquela onde todas as histórias estão guardadas, as nossas e as dos nossos pais e dos nossos filhos, as que já foram contadas e as que estão ainda por contar.


luisa

ressaca...

depois de quase uma semana de contos escutados e contados, em quantidade e qualidade, em praças e jardins e pátios e fábricas, ao sol e à luz das estrelas, em inglês e em português, o que me apetece mesmo é enrolar-me em silêncio para os contos terem tempo para alojar-se em mim... neste sofá seria bom!


bjñs quietos
sfaia

2011/06/24

O Tim foi um dos primeiros contadores que ouvi aqui em Portugal. Fiquei fascinada, mesmo quando não percebia nada. (pois, devo dizer, não sou muito ferrada em inglês...) A voz do Tim transporta-nos direitinhos para um mundo de outras cores, melhor que qualquer máquina de viajar. Hoje estará no espaço Sou, em Lisboa. Já estou a contar os minutos....

Para quem ainda não o conhece, aqui vai um das suas histórias maravilhosas, recolhidas no livro "Contos do mundo".


A semente
de Tim Bowley

A jovem pobre ficou profundamente excitada quando ouviu anunciar que quem quisesse casar com o rei devia dirigir-se ao palácio, pois certo dia tinha-o visto passar a cavalo e ficara apaixonada por ele. Assim, foi a correr ter com a mãe: - Vou ao palácio - disse, -vou casar com o rei!
A mãe sorriu e abanou a cabeça: - Sempre a sonhar! O rei não se refere a raparigas pobres como tu. Aquilo é para ricas, para as nobres. Se lá fores, eles riem-se de ti e correm contigo. - Não importa - disse a rapariga - Vou até lá. Quero casar com ele.
No dia seguinte foi ao palácio e, tal como a mãe previra, apenas as mulheres mais ricas e mais belas do reino lá estavam. A jovem pobre foi para o lugar que lhe indicaram, no fim da fila, enquanto as outras mulheres troçavam dela entre si e a ignoravam. Pouco depois, o rei apareceu e todas as mulheres afivelaram os seus sorrisos mais coquetes, excepto a jovem pobre, que ficou em pé no fim da fila, com a cabeça curvada, sem se atrever sequer a olhá-lo de frente. O rei percorreu a fila e deu a cada uma um vaso com uma semente. Depois voltou a subir ao estrado e disse: - Vão para casa. Plantem a semente que está dentro do vaso. Voltem daqui a três meses e casarei com aquela que tiver plantado a flor mais bela. A jovem pobre levou o vaso e a semente para casa, com o coração a palpitar. Quando lá chegou, plantou cuidadosamente a semente e regou-a. todos os dias em que fazia sol ela punha o vaso lá fora e regava-o; levava-o para dentro de noite, quando estava frio, falava com ele, cantava para ele, mas não nascia nada. Ainda assim não se dava por vencida. Embora os dias se transformassem em semanas e as semanas em meses, continuava a cuidar da semente com esmero, mas, apesar de todos os esforços, o vaso com terra não passava de um vaso com terra. Quando os três meses se esgotaram, nem uma folhinha pequena tinha rompido a terra.  - Amanhã é o dia de ir ao palácio - disse ela, triste. - Ir ao palácio? - Esganiçou a mãe. - Tu não podes ir ao palácio. Olha para o teu vaso, está vazio! Eles vão correr contigo, vão-te bater! - Bem, - disse ela - podem me fazer o que quiserem, mas pelo menos poderei ver o rei uma vez mais. No dia seguinte ela pegou no vaso e dirigiu-se ao palácio. Quando lá chegou, o seu coração esmoreceu, pois estavam lá todas as mulheres, e cada uma tinha uma flor mais bonita do que a outra. Cores incríveis, formas fantásticas, aromas maravilhosos. Não faltaram risadas quando viram a jovem pobre chegar com o vaso vazio, mas ela nada disse e foi para o seu lugar para o fim da fila. O rei não tardou a aparecer. Percorreu a fila de belas mulheres com as suas flores maravilhosas sem sequer olhar para elas. Foi até ao fim da fila, onde estava a jovem pobre com o vaso vazio e pegou-lhe na mão. Conduziu-a até ao estrado e disse: - É esta a mulher com quem casarei. - As outras ficaram furiosas. - Como podei casar-vos com ela? Ela não trouxe nada! Vede a minha flor, é linda! Olhai para mim, vede o que trago! Ela não trouxe nada! Ela não trouxe nada! - O rei ergueu a mão, pedindo silêncio. - Está jovem cultivou a mais bela de todas as flores. E essa flor chama-se honestidade, pois as sementes que vos dei eram todas estéreis.

Antonella

2011/06/23

grande amigo

 Hoje, que já é Verão,deram-me as saudades do meu amiguinho.
Como ele gostava de correr na praia, de escavar buracos, de se molhar nas ondas!
Era meigo como uma pomba e forte como um touro e, claro, inconsciente da sua força.
Lembrei-me de tantas das nossas brincadeiras  e por isso me vieram à  ideia os versos do Alexandre O'Neill :

Cão

Cão passageiro, cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além e sempre cão.
Cão amarrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão esfera de sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!

2011/06/21

O homem da perna de pau

(Nota introdutória: antes de prosseguir leia "Noites quentes", um post anterior, deste blog.)

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Lembro-me, quando era miúdo, quando vivia com os meus avós no bairro dos pescadores, do homem da perna de pau.

Era um homem velho, de cabelo cinzento e barba farta, encaracolada como ondas numa tempestade.

Lembro-me que sempre que o via imaginava que aquele homem era um pirata de alto mar, com muitas histórias para contar.

Como os meus avós me contavam muitas histórias eu pensava que era natural que os mais velhos contassem histórias e por isso, sempre que estava próximo do homem da perna de pau, procurava que me contasse alguma coisa.

Procurava que me contasse alguma história como a perseguição de uma baleia feroz ou o ataque de um polvo gigante que revirava facilmente pequenos botes no ar ou o avistar de um navio fantasma ou o doce convívio com sereias e o seu belo canto.

Procurava que me contasse alguma coisa sobre algum dos seus naufrágios, da sua longa vida de marinheiro, da sua doença de alto mar que lhe levou a perna ou remoinhos medonhos que engoliam navios inteiros ou ondas enormes que derrubam embarcações com os seus encontrões portentosos.

Procurava que me contasse alguma coisa mas, na realidade, nunca me contou nada.

Limitava-se a olhar para mim, com os seus olhos cinzentos, da cor do mar num dia sem sol.

E eu insistia e perguntava-lhe:

- Então e as sereias? Os polvos? E as baleias?

E insistia:

- E os trovões? Os relâmpagos? Os tubarões? E as misteriosas ilhas e as suas maravilhas?

E ele olhava para mim e nada. Nunca nada. Nunca uma palavra para mim.

Eu inventava situações, episódios, histórias inteiras que pudessem servir de rastilho para que o pirata de alto mar começasse a contar as suas histórias.

Mas nada.

Às vezes pensava que o homem da perna de pau não achava nada do que eu dizia interessante.

Às vezes pensava que nenhum daqueles rastilhos era interessante o suficiente para que ele quisesse contar as suas histórias e isso fazia com que eu fantasiasse ainda mais sobre o deslumbre que seriam as suas histórias, e isso fazia-me imaginar outras histórias para lhe contar para tentar mais uma vez que ele contasse alguma coisa e...

Caramba, que histórias seriam aquelas que ele tinha para contar?

Mas nada, nunca nada.

Alguns anos depois de o homem da perna de pau morrer, a minha avó contou-me que ele estivera preso a maior parte da sua vida e que fora na prisão que perdera a perna.

Quando a minha avó me contou isso, compreendi então o que o homem da perna de pau me disse ao ouvido, no seu leito de morte, com uma lágrima salgada - do mar que afinal ele nunca navegou - a escorrer em ziguezague pelos vincos das rugas da sua face:

- Obrigado pelas tuas histórias!



António, in "Memórias Inventadas"

2011/06/17

para o meu bando...



uma entrevista estupenda!

Preciso...

Preciso  (Marina Colasanti)

Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.



bjñs necessários
sfaia

2011/06/16

Em Guadalajara

Guadalajara, Maratona de los Cuentos, 10,11,12 junho 2011

Em Guadalajara há pássaros que cantam em todas as ruas
Em Guadalajara há contos que voam, histórias que encantam,
animais que falam, letras que flutuam suspensas no ar.
Em Guadalajara há crianças lindas e gente que espalha
milhares de palavras doces, sábias, belas, tristes e de medo
e também de esperança, cheias de alegria e também de amor
e de reflexão, de sonho e de tudo aquilo que enche
nosso coração.  Na terra dos contos, há já vinte anos,
há os melhores cuenteros, os mais generosos, os mais divertidos,
os mais envolventes, os mais inventivos. Todos se conhecem
e se reconhecem no amor pelos contos. E há pelo ar
ideias e risos... e ainda há mais coisas  em Guadalajara!


Obrigada Eraclio Zepeda, Nicolas Buenaventura,  Maricuela, Tim Bowley, Paula Carbalheira,
Carles García Domingo,  Jose Campanario, António Fontinha,  Xavier do Campo, Pep Bruno,
Rodorín,  Kico Cadaval, etc., etc.

luisa

2011/06/15

Jeremias #1

Encontrei ontem, passado mais de meio século, um amigo de infância. Na realidade, o Jeremias foi mais do que um amigo, foi o meu primeiro "melhor amigo".

Ontem reconheci o Jeremias pela forma estranha como caminha. Lembro-me que quando éramos meninos o Jeremias ficou com o pé esquerdo preso numa armadilha para cobras, que ele próprio tinha montado.

Aquela forma de se deslocar, compassada, com uma métrica bem definida e em ligeiro desequilíbrio para a frente, era só dele e foi por esse seu andar que o reconheci.

Jeremias vinha andando, nesse seu jeito, numa rua estreita da baixa de Lisboa, descalço, sujo, com roupas muito gastas, com três sacos de plástico nas mãos.

Aproximou-se da montra de uma loja, pousou os sacos e de um deles tirou um pano espesso que estendeu na laje de mármore maciça e inteira, na qual assentava o vidro da montra.

Deitou-se e deitado esticou-se para puxar para si um dos sacos, o da comida. Comeu bolachas de água e sal, comeu feijão directamente da lata e bebeu vinho branco do pacote.

Foi por livre opção sua que decidiu passar ali a noite naquela montra, naquela montra em particular e não noutra qualquer.

Na realidade, Jeremias tinha um grande número de montras que poderia escolher para dormir mas ontem apetecia-lhe aquela, a do dentista.

Às vezes gostava de dormir junto das montras de bancos e em sonhos imaginar-se a entrar por ali dentro, sem se deter em nada e a cumprimentar toda a gente, pessoas que estivessem à sua direita e pessoas que estivessem à sua esquerda, pessoas que estivessem atrás do balcão e pessoas que estivessem à frente do balcão, e toda essa gente, todas essas pessoas, o cumprimentavam, respeitosamente, no seu sonho.

Jeremias nunca entrou num banco... Não sabe a que cheiram nem sabe qual é a textura do chão que os seus pés descalços sentiriam.

Outras vezes Jeremias gostava de dormir nas montras de lojas de lingerie - e na baixa há muitas. Estas montras oferecem-lhe inspiração para sonhos mais ousados e sensuais. De manhã, quando acorda, às vezes, fica a olhar para os manequins na montra e a lembrar-se, ainda com o gosto dos beijos nos seus lábios, os momentos que viveram nessa noite, nas suas fantasias. Seriam só fantasias suas ou os manequins também fantasiavam?

Nem sempre os sonhos tinham a ver, de forma tão directa, com o tema da montra. Às vezes, um detalhe numa montra evocava outra montra e nessa outra montra Jeremias encontrava outro ponto de interesse e assim, em sonhos, percorria, numa vertigem, várias ruas da cidade.

Às vezes também lhe ocorria misturar tudo como, por exemplo, entrar no banco acompanhado por duas belas manequins de lingerie e ver toda a gente, as pessoas que estivessem à sua direita e as pessoas que estivessem à sua esquerda, as pessoas que estivessem atrás do balcão e as pessoas que estivessem à frente do balcão a cumprimentarem-no, respeitosamente, e a piscarem-lhe o olho.

Mas ontem não era nada disso que ele queria.

Ontem, ele queria dormir na montra do dentista porque se lembrava que há tempos tinha ido a esse consultório e quem o atendeu foi uma mulher que o acalmou e o fez deitar-se na sua cadeira recostada e o agarrou na sua cabeça com firmeza e cuidado, contra o seu peito. E nessa posição, com a cabeça entre aquelas mãos femininas, cuidadoras, e o peito da dentista, o Jeremias sentiu-se outra vez menino sendo cuidado pela sua mãe e recordou-se da sua infância, e ao recordar-se da sua infância lembrou-se de mim, o seu primeiro "melhor amigo".

Ontem, o Jeremias queria dormir ali porque queria sonhar comigo.




António, in "Memórias Inventadas"

2011/06/13


Hoje estou feliz: os italianos disseram definitivamente não ao nuclear, votando um referendum popular que proíbe a construção de centrais nucleares em Itália, contra o desejo de muitos políticos, entre eles o primeiro ministro Berlusconi. Lembrei-me desta história, que Umberto Eco escreveu já há muitos anos. Continua actual,  experimentem só trocar a palavra "bomba" por "central nuclear" e "general" por "primeiro-ministro".

A Bomba e o General

Era uma vez um átomo.
E era uma vez um general mau com uma farda cheia de galardões.
O mundo está cheio de átomos.
Tudo é feito de átomos: os átomos são pequeníssimos e, quando se juntam, formam moléculas que, por sua vez, formam todas as coisas que conhecemos.
A mãe e o pai são feitos de átomos. O leite é feito de átomos. A mulher é feita de átomos. O ar é feito de átomos. O fogo é feito de átomos. Nós somos feitos de átomos
Quando os átomos estão juntos harmoniosamente, tudo funciona na perfeição. A vida assenta nesta harmonia.
Mas quando se consegue quebrar um átomo… e as suas partes vão bater noutros átomos, que vão bater noutros átomos ainda, e assim por aí fora… dá-se uma explosão terrível! É a morte atómica.
Pois bem, o nosso átomo estava triste, porque estava metido dentro de uma bomba atómica. Junto com outros átomos, aguardava o dia em que a bomba seria lançada e eles se quebrariam, destruindo todas as coisas.
Ora, devem saber que o mundo também está cheio de generais que passam a vida a coleccionar bombas. E o nosso general enchia o sótão de bombas.
– Quando tiver muitas – dizia ele – vou fazer uma linda guerra!
E ria-se.
Todos os dias, o general subia ao sótão e punha lá uma bomba novinha.
– Quando o sótão estiver cheio – dizia ele – vou fazer uma linda guerra!
Como se pode não ser mau, quando se tem tantas bombas assim à mão?
Os átomos encerrados nas bombas estavam muito tristes. Por causa deles, ia haver uma enorme catástrofe: iam morrer tantos meninos, tantas mães, tantos gatinhos, tantas cabrinhas, tantos passarinhos, todos, afinal. Seriam destruídos países inteiros: onde antes havia casinhas brancas de telhados vermelhos e verdes árvores à volta… só ficaria um horrível buraco negro. E assim resolveram revoltar-se contra o general.
E uma noite, sem fazer barulho, saíram todos das bombas e esconderam-se na cave.
Na manhã seguinte, o general foi ao sótão com outros senhores.
Estes senhores disseram:
– Já gastámos um dinheirão para fazer estas bombas todas. Quer deixá-las aqui a ganhar bolor? O que pretende fazer, afinal?
– É verdade – respondeu o general. – Temos mesmo de começar esta guerra. Se não, nunca mais consigo fazer carreira.
E declarou guerra.
Quando se espalhou a notícia de que ia rebentar a guerra atómica, todos ficaram loucos de medo:
- Oh, se não tivéssemos deixado que os generais construíssem bombas! – diziam.
Só que era demasiado tarde. Todos fugiam das cidades. Mas onde podiam refugiar-se?
Entretanto, o general tinha carregado as suas bombas num avião e estava a lançá-las uma a uma sobre todas as cidades. Mas, quando as bombas caíram, como estavam todas vazias, não rebentaram!
E toda a gente, feliz por ter passado o perigo (até parecia mentira!), as usou como vasos de flores.
Descobriram assim que a vida era mais bela sem bombas. E decidiram nunca mais fazer guerras.
As mães estavam mais contentes. Mas também os pais. Todos, aliás. E o general?
Agora que já não havia guerras, foi despedido.
E, para utilizar a farda cheia de galardões, foi para porteiro num hotel. E como agora todos viviam em paz, vinham muitos turistas ao hotel. Até os inimigos de outrora. Até os soldados que antes o general tivera sob as suas ordens.
O general, quando entravam e saíam do hotel, abria a grande porta de vidro, fazia uma vénia ridícula e dizia:
– Bom dia, meu senhor!
E eles, que o reconheciam, diziam-lhe de muito má cara:
– Não tem vergonha? O serviço é péssimo neste hotel!
E o general ficava corado, corado, e calava-se.
Porque, agora, já não valia nada.

Umberto Eco
A bomba e o general
Lisboa, Quetzal Editores, 1989
Antonella

2011/06/12

silêncio...

Silêncio é o tema deste ano do Maraton de los Cuentos de Guadalajara... silêncio é a minha reacção por não poder ir... silêncio é o que vai haver pouco pelo palco do Palácio do Infantado e do Teatro Moderno durante o Festival... e isso é bom... porque assim também a Lu e a Cai não estarão silenciosas quando regressarem e nos contarem tudo... se bem que silêncio também pode ser muito bom (como nesta pequena pérola dos www.storypeople.com):

I sometimes wake in the early morning & listen to the soft breathing of my children & I think to myself, this is one thing I will never regret & I carry that quiet with me all day long.


Às vezes acordo cedo de manhã e escuto o suave respirar dos meus filhos e penso para comigo, isto é algo de que nunca me arrependerei e carrego esse silêncio comigo durante todo o dia.






bjñs ruidosos
sfaia

2011/06/09

Luis Cardoso, escritor de Timor

Folheando o JL desta quinzena, qual não é o meu espanto e encanto ao deparar com esta prosa! Perdoe-se-me esta falta de modéstia, mas é absolutamente irresistível:

"17 de Maio de 2011
Começo o dia pela Biblioteca de Oeiras. Passo pela secção infantil, onde a (minha filha) Clara dá largas à sua alegria com a extensão do espaço, com a quantidade e diversidade de livros e com a simpatia das funcionárias.
....
Toca nos livros e demora-se mais na prateleira dedicada ao tempo. Pega num livro onde se mostram os relógios. Gosta dos relógios, do tique-taque dos relógios. Tem isso tão presente na sua cabeça. Como se todos os objectos tivessem pulsação.  Inclusive aqueles que estão pintados nos livros.  Inclusive o combóio que passa aqui mesmo ao lado.  Nesta linha de  Cascais  onde não  vivem só betinhos.
.....
Aqui nesta Biblioteca de Oeiras fazem-se milagres.  As crianças entram tristes e saem felizes.  Crianças de escolas públicas e privadas, provenientes de vários extractos sociais, Visitam-na para ouvirem estórias. Estórias que contam os contadores de estórias. Falam, riem, choram, fazem caretas, pulam e dançam. Fazem tudo para que ninguém fique sem perceber a estória.
....."

Excerto de Aqui em Baixo é tudo Azul , crónica em forma de Diário in JL nº 1061, de Luis Cardoso, escritor de Timor considerado o mais importante ficcionista timorense, autor do romance Crónica de uma Travessia.

2011/06/03

Vem aí Nicolás

Nicolás Buenaventura vai estar em Lisboa e Almada entre os dias 7 e 9 de Junho, para sessões de contos e conversas.
Eu, muito contente. Já faz tempo, desde a última vez que o tivemos por cá. Quanto tempo faz!
Gosto de tudo, em Nicolás.
Da voz doce e pausada, dos olhos tantas vezes fechados ao contar, do jeitinho com que apoia um pé descalço sobre o outro, dos sorrisos que faz para dentro a meio dos contos.
Mas, principalmente, gosto dos contos que conta e que torna profundamente seus.

Para festejar a vinda de Nicolás, transcrevo um dos pequenos textos do seu livro Palabra de Cuentero, ed. Palabras del Candil, Guadalajara.

"El mundo, reducido a la pantalla de un televisor, resulta estrecho. Agregaria que hace poco leí un artículo, en una revista científica, en que contaban que habían medido, con aparatos muy sofisticados, la actividad cerebral de varias personas que leían, veían televisión, escuchaban música, escuchaban historias. Las proporciones eran muy halagadoras para los que nos dedicamos a contar historias en vivo. La actividad mínima, menos de un 5%, resultaba cuando la persona estaba sentada viendo televisión, y tendía a bajar. Y la máxima era cuando escuchaba historias y más todavía, historias con música (no cantadas) y tendía a aumentar, de un 80% a un 85%. No sé qué tan fiable era el experimento pero me permite reafirmarme en una intuición: el cuento es un instrumento de pensamiento."

É isso, Nicolás!

Cláudia

2011/06/02

de tarde

Entra Junho e esta magnífica primavera do meu contentamento faz-me pensar em passeios, bosques, pique-niques....




Naquele pic-nic de burguesas
houve uma coisa simplesmente bela
e que, sem histórias nem grandezas
em todo o caso dava uma aguarela

Foi quando tu, descendo do burrico,
foste colher, sem imposturas tolas,
a um granzoal azul de grão de bico
um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima dos penhascos,
nós acampàmos, inda o sol se via
e houve talhadas de melão, damascos
e pão de ló molhado em malvasia.

Mas todo púrpuro a sair da renda
dos teus dois seios como duas rolas,
era o supremo encanto da merenda
o ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde

2011/05/31



...a Maria, assim se chamava a menina, sempre vira a alegria dos irmãos ao dizerem que eram bom enfiarem-se dentro de um livro.
Por isso, ela própria queria tentar também entrar num livro.
Pegou num onde havia uma porta ilustrada e, do outro lado, estava uma enorme extensão de areia junto ao mar.
Então, a Maria atira-se de cabeça para tentar entrar naquela página do livro, mas caiu e magoou-se. Mesmo assim não desistiu. Experimentou meter o braço como se fosse mergulhar numa banheira ou colocar o livro em cima da cabeça, como se estivesse a vestir a camisola. Nada funcionou.
A Maria decide então deitar-se no chão e começar a ler o livro, devagarinho, porque mal sabia ler.
Quanto o bibliotecário chega, repara que está no chão um livro aberto, mas nem sinal da Maria. Pega no livro e coloca-o na estante.
A mãe da Maria chega e, nesse instante, cai o livro da estante e aparece a Maria a correr, muito feliz e com os sapatos cheios de areia.
(Blogue da turma B, do terceiro ano, da Escola Básica de Santa Luzia, em Guimarães - 28 de Março de 2011)

...nós bem tentamos, mas a Maria é que sabia...